A marcha tétrica
Direito. Esquerdo. Direito. Esquerdo.
Um pé ultrapassava o outro na marcha tétrica da rotina. Pessoas e carros seguiam mudos suas pressas e, independente da direção, se distanciavam.
Eu seguia para casa, com meus passos fordistas e meus fones de ouvido, dadivando aquelas ruas abafadas e repetitivas com bossa nova.
Todos me cruzavam alheios, fitando o chão num ângulo de 45 graus para não tropeçarem durante o mergulho na introspecção. Direito; Esquerdo. Nada chama minha atenção. Passavam carros iguais, pessoas iguais. Eu preferia mergulhar na música e olhar o chão. O Sol não deixava sombras àquela hora.
Ergui a cabeça para atravessar um cruzamento, do outro lado vinha um menino. Esquerdo; Esquerdo; Direito; Direito. Ele andava e saltitava e dançava e cantava e sorria. Passo-a-passo, descalço. Vestia farrapos e dançava funk de forma lúdica… eu sorri - Quebrando a métrica da marcha tétrica.
Quando passou ao meu lado, em um gesto instintivo, estendi a mão a fim afagar-lhe a cabeça porém ele recuou com insegurança, poder-se-ia dizer medo. Éramos diferentes, eu era estranho. Eu andava direito como um robô. Direito; Esquerdo. Eu ouvia a música ao invés de cantá-la e dançá-la. Eu me limitava. Eu não era confiável, definitivamente não.
O pequeno continuou andando e eu fiquei um tempo parado no meio da pista, frustrado, observando-o descer a rua. A minha música já tinha terminado e não passava nenhum carro no momento. Direcionei meu rumo no silêncio e segui para casa com passos lúcidos, cantarolando meio desafinado.